Ei, NYT, meu corpo estava destruído antes de eu começar a fazer yoga – a vida pode fazer isso! Por Anthony Grim Hall

O texto e as fotos foram gentilmente cedidas por Anthony Grim Hall para tradução e publicação no Movimento Ashtanga.

Post original: http://grimmly2007.blogspot.com.br/p/h-hey-nyt-my-body-was-wrecked-before.html

No meu primeiro dia em um emprego de verdade, empolgado em chegar cedo, eu torci meu joelho ao me vestir. Quando cheguei ao trabalho, o meu joelho estava do tamanho de uma bola de futebol e precisou ser drenado. Dois anos depois, numa aula de Aikido, a mesma coisa aconteceu. Aparentemente meus joelhos eram fracos, e agora ainda estavam suscetíveis a pequenos tumores não malignos, que tinham que ser retirados de vez em quando. Talvez tenha sido hereditário – lembro do meu avô, um jogador entusiasta de críquete na juventude, clinicamente obeso e sem praticamente conseguir andar nos últimos 30 anos de vida, por conta dos joelhos.

Aos vinte e poucos, eu larguei tudo, e com um bilhete só de ida e uma libra no bolso, eu fui para a França. Eu e um amigo pegamos carona e andamos metade do mundo, trabalhando em qualquer coisa que pudéssemos – construí paredes e telhados, casas, pavimentei estradas e cavei buracos. Enquanto trabalhava como chefe de uma pizzaria, carregava dez bandejas de massa de pizza, minha coluna se acabou e com o que já estava acontecendo com os joelhos, depois de dez anos foi o fim das minhas viagens e trabalhos.

Trabalhei como cozinheiro ao longo da universidade, desenvolvendo gosto por whiskey puro, fazendo uma bagunça com o meu fígado nesse processo. Depois de abandonar uma carreira acadêmica promissora – acho que tinha questões com a raiva – fui embora para o Japão para me tornar professor de inglês.

Não podem ter muitos que conseguem não ser saudáveis quando chegam ao Japão – eu consegui fazer isso. Trabalhei com treinamento de professores tentando acabar com a dogma dos ex-professores que acabavam de sair do avião e tinham que ser substituído. Trabalhava muitas horas ensinando e preparando cursos, sofria de cansaço, stress e ganhei peso com tanto fast food e cerveja.

Então meus joelhos se acabaram assim como minhas costas e meu fígado. Eu estava muito acima do peso e sofria com stress. Me sentia empachado em todas as refeições, desenvolvi pedras nos rins e tive que tirar a vesícula – meu corpo estava destruído… apenas viver sua vida pode fazer isso!

chargeA parte curiosa é que eu não percebi em nenhum momento que eu estava ficando tão fora de forma, tão sem saúde; e é chocante olhar para minhas fotos antigas agora… como que eu podia não saber? Existiam sinais – as pedras nos rins, a remoção da vesícula – quando tiraram minha vesícula ficaram espantados com a quantidade de colesterol (isso era no Japão).

Isso é o que dá medo. Eu acho que a maioria dos homens de meia idade acima do peso e sem saúde pensam que  estão bem – poderiam melhorar se perdessem um pouco de peso talvez, mas como um todo pensam que estão bem e não percebem quanto que deixaram a saúde de lado, quanto trabalho teriam para reverter isso, e que isso vai ficar cada vez mais difícil – teriam que começar imediatamente, hoje, e não esperar pela resolução de ano novo.

Encontrei a yoga quase que por acidente, mas se tornou uma paixão.

Voltei para o Reino Unido e me tornei reparador de instrumentos de sopro, tendo começado a tocar saxofone no Japão.

Meu apartamento foi roubado em fevereiro de 2007 e sete saxofones estilo vintages foram roubados, incluindo um que eu tinha comprado durante uma viagem para New York especialmente para isso. Fiquei com raiva em relação a todo acontecimento, e irritado com o fato de estar com raiva. Então decidi voltar para a meditação – eu tinha praticado um pouco de Zen alguns anos antes. Escutei os podcasts do ZenCast com Gil Fronsdal, e comecei a praticar meditação Vipassana. Lendo sobre a prática, descobri que muitas das pessoas que meditavam carry-om-largetambém praticavam yoga, então peguei um livro na biblioteca, que acabou sendo o Total Astanga: The Step-by-Step Guide to Power Yoga at Home for Everybody, da Tara Fraser. Parecia o mais estruturado e o que menos me deixaria envergonhado em trazer para casa. Fora de Londres, homens de meia idade não costumavam fazer yoga – eles iam para academia pra levantar peso talvez, mas não yoga.

Pratiquei com esse livro por um mês nas manhãs, antes de ir para o trabalho, com uma toalha de banho e com as roupas de baixo, enquanto minha chinchila me observava. Se me lembro bem, eu ia até até às posturas em pé, o que levava de 30 a 45 minutos, parando de tempos em tempos para virar a página, ou checar alguma coisa no livro. Tinha 44 anos, pesava 94kgs e não praticava nenhum exercício há mais ou menos 4 anos. Tinha um pouco de barriga e me sentia sem saúde. Me lembro de ter prazer em levantar de manhã e praticar no escuro. Amava o Suryanamaskara A , Suryanamaskara B me deixava exausto. Ficava frustrado de não conseguir esticar as pernas nas flexões para frente, tinha que segurar na parede para fazer Utthita hastasana, etc. Virabhadrasana A e B eram uma agonia, assim como Utkatasana. Não podia sequer pensar em conseguir fazer o Ardha baddha padmottanasana. Me doía inteiro pelo resto do dia, mas era uma dor boa e a prática se tornou a melhor parte do meu dia. Às vezes parecia que o dia acabava assim que a minha prática terminava e eu não podia esperar até a próxima manhã.

post2Como em muitos outros casos com a yoga, mudei diversas outras áreas na minha vida, para alinhar com minha prática. Comia menos para não me sentir pesado e empachado na manhã seguinte. Praticamente parei de beber – tomava um pouco de vinho com  água com gás ou um martíni, ou um pouco de sakê ocasionalmente. Queria conseguir acordar de manhã e me sentir disposto. Depois de um ano até me tornei vegetariano. Não estava exatamente tentando ser magro ou saudável, apenas queria praticar yoga mais confortavelmente. Não tem nenhuma barriga de tanquinho na segunda foto, nem bíceps gigantes, mas acho que parecia estar mais saudável.

Me sentia mais leve, e apesar de todas as posturas avançadas tipo pretzel que eu exploro hoje em dia, não tivemais nenhum problema com meus joelhos. Não me sinto mais empachado depois das refeições e, recentemente, enquanto escrevia sobre yoga no meu computador, formatando milhões de fotos e links, percebi que não gritei nem xinguei o computador nem uma vez por não fazer o que eu queria. Isso era algo que eu sempre fazia na época dos treinamentos para os professores. Estou mais calmo e com boa saúde.

Oi, NYT, meu corpo estava destruído ANTES de eu ter começado a fazer yoga, agora… nem tanto!

Vejo homens da minha idade pela rua, ou talvez um pouco mais jovens – não estou falando dos que são clinicamente obesos, mas caras normais que eu provavelmente achava que não eram menos saudáveis que o próximo. Tenho certeza que eles acham que poderiam beber menos, comer menos, andar mais com o cachorro, mas provavelmente não vão fazer isso.

Eles precisam de campanhas do governo – uma desses comerciais de aumento de consciência – que diz: “Espere um minuto, você não precisa perder alguns quilinhos, você precisa repensar como está vivendo sua vida”, e isso é importante porque tem gente morrendo por isso.

Para mim foi a yoga, para eles pode ser outra coisa – mas tem que ser algo e tem que ser encorajado e ser dado o suporte.

Esse é o tipo de artigo que eu gostaria de ter visto na revista do NYT.

anthonyAnthony Grimm Hall começou a praticar Ashtanga em março de 2007. Ele foi roubado, ficou com raiva disso e com raiva de sentir raiva. Pegou alguns livros de meditação na biblioteca e depois alguns de yoga para lidar com a raiva. Ele estava acima do peso (94kgs), sem saúde e não era flexível. Nos primeiros 4 anos se sentiu mais saudável, e foi apenas a duas aulas de Ashtanga no estilo Mysore. Ele aprendeu através de livros e vídeos, e comentários no seu blog. Agora ele pesa 78kgs, se sente mais leve, forte e flexível. Em 2008, criou um blog – Ashtanga Vinyasa as Home – começando seu blog para tratar de sua obsessão em conseguir fazer o jump back (depois dropbacks, kapotasana, karavandasana, série avançada etc). Em junho de 2009 ele encontrou Srivatsa Ramaswami (um dos alunos mais antigos do Krishnamacharya) e com seu livro “O livro completo do Vinyasa Yoga” – ele gastou o resto do seu ano trabalhando na melhor maneira para combinar isso com a prática de Ashtanga. Em 2010 fez o curso de 200h do Ramaswami e praticou Ashtanga com influência do Vinyasa Krama. Publicou um livro sobre prática em casa (Vinyasa Yoga at Home Practice) para Kindle baseado nas sequências e subrotinas de Ramaswami com notas da prática, incluindo dicas e sugestões para cada subrotina. Esse artigo foi preparado pelo editor assistente de Yoga, Soumyajeet Chattaraj.

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