Sobre os dias de lua – por Eddie Stern

Link para o texto original: https://theconfluencecountdown.com/2013/03/12/eddie-stern-on-moon-days/

É possível que o estudante que perguntou sobre a proibição de praticar yoga nos dias de lua cheia ou nova fez isso por causa das orientações de Pattabhi Jois. Muito já se questionou sobre esse assunto,  com todos os tipos de idéias sobre o porque e o significado de não se praticar nesses dias. No entanto, a razão para a pausa de Pattabhi Jois nestes dias é bastante simples. Como se sabe, o Maharaja’s Pathashala (a Universidade de Sânscrito) era fechada todos os meses para as aulas nos dias da lua e nos dias anterior e posterior. Os alunos continuavam os estudos, mas não eram ensinadas novas lições. Uma das razões para isso era que no amavasya e no purnima, certos rituais tinham de ser realizados por ambos os professores e os alunos, que são todos brâmanes – por exemplo, o pitr tarpana que é executado no amavasya, e o banho ritual no dia seguinte às luas – tudo isso leva tempo para ser realizado. Além disso, embora eu nunca tenha sido capaz de encontrar a referência, Pattabhi Jois costumava citar – e também ouvi isso do meu professor Narayanacharya de Bhagavad Gita em Mysore – que se um professor ensina novos assuntos nos dias de lua, seu conhecimento irá declinar; e no dia antes ou depois, o conhecimento do aluno irá declinar.

Quando falei com o astrólogo de Pattabhi Jois ao entrevistá-lo para o livro “Guruji”, ele concordou tem algo a ver com a idéia  de “como acima, assim abaixo” (‘as above, so below’): na tradição védica nossa mente é como a lua que aumenta e diminui, e retém informações de acordo com o ciclo de atração gravitacional que a lua exerce sobre a terra.

Desde que Pattabhi Jois era um estudante no Maharaja’s Pathashala, e professor de Yoga na faculdade de 1937 a 1973, tirar esses dias de folga tornou-se um hábito para ele. Como ele sustentava que o yoga era uma prática de origem védica, e que os conhecimentos dos Upanishads deveriam ser acessados através de asanas e pranayama, ele atribuía as mesmas folgas ao ensino de yoga e ao  ensino dos Vedas. Ele também costumava dizer que nos dias da lua cheia e da nova lua havia uma conjunção particular de nakshatras que tornava mais fácil se machucar e que a lesão levava mais tempo para se curar. Eu nunca fui capaz de confirmar isso através da astrologia védica; talvez ele tenha aprendido com seu pai, que era um reconhecido jyotishi.

Pattabhi Jois conhecia muito sobre astrologia também – o nome Jois é um diminutivo no sul da Índia para Jyotish, e a astrologia estava em sua tradição familiar. Digo isso para marcar o simples ponto de que Pattabhi Jois seguia certos hábitos desde os 14 anos. O porque desses hábitos é interessante, e embora não sejamos brâmanes – ou mesmo indianos -, como seus alunos é bom para entender as razões de alguns dos seus atos, e aceitar que se ele achava que era importante o suficiente para ser seguido, que então também se aplica a nós. Mas nós não devemos fazer grande alvoroço com isso e criar todos os tipos de idéias fantásticas a respeito!

Abaixo, uma história engraçada para ilustrar o que acontece quando nós (por exemplo, os estudantes de Ashtanga Yoga!) não investigamos os fatos de maneira racional:

Um estudioso costumava dar aulas sobre o Bhagavad Gita todas as noites debaixo de uma árvore perto de uma aldeia. Ele tinha um gato de estimação, e este gato às vezes corria no meio das pessoas, fazendo bagunça. Dessa maneira, o sábio começou a amarrar o gato na árvore durante os momentos em que estava dando aula. Depois de algum tempo, o orador faleceu. Um de seus discípulos continuou a dar as aulas sobre o Bhagavad Gita debaixo da árvore, e a amarrar o gato durante a aula. Depois de algum tempo o gato morreu, e o discípulo comprou outro gato. Depois de três gerações, um discípulo escreveu um artigo sobre a tradição sagrada de se amarrar um gato à árvore durante as aulas sobre o Bhagavad Gita.

Então, dito tudo isso, penso que por respeito a Pattabhi Jois, aos seus métodos e aos seus ensinamentos, é bom que os seus alunos sigam a folga do dia da lua, se puderem. O objetivo de seguir isso, e submeter-se à linhagem, é criar humildade, reflexão e um certo tipo de disciplina no aluno. Nós não iremos (muito provavelmente)  para o inferno se praticarmos nestes dias. A filha de Pattabhi Jois, Saraswati (que foi a primeira e única mulher a praticar yoga com ele no Universidade de Sânscrito) costumava dar aulas de segunda a sexta-feira e tirar os fins de semana de folga, e dizia que nos dias da lua simplesmente não ensinava novas posturas. Além disso, ela também dizia que seus alunos não praticavam todos os dias da semana, mas para aqueles que praticam, um dia de descanso ocasional é bom para o corpo.

Entregar-se a uma linhagem tem seu próprio charme e efeito sobre o nosso caráter, então por que não deveríamos experimentar? Não acredito que todos os estudantes de yoga devem se abster de praticar nestes dias – eles também devem seguir as orientações de seus professores, e espero que por alinhamento de suas mentes com princípios mais elevados, todos encontremos felicidade na nossa prática. Seja nos dias de lua ou não!

Eddie Stern

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