Mãos que curam

Texto de Junior (Jay Gauranga)

Publicado originalmente no blog do Goura Shala.

Fotografia: Pedro Ângelo

A abordagem utilizada por S.K. Pattabhi Jois na prática de Ashtanga yoga é bem peculiar se comparada a outras modalidades de yoga. Como sempre, eu venho tentando fazer a ponte entre a filosofia e prática, uma vez que utilizamos do conhecimento dos textos para realizações pessoais, pois isso é o alicerce do yoga! O entendimento (textos) junto com a vivência diária (esticar o tapete) resulta na transformação do indivíduo e, notadamente, na mudança do seu olhar para o que está ao redor.

Patanjali expressa claramente que um bom asana reside no equilíbrio entre firmeza e conforto. Assim, o Yogi procura achar o equilíbrio nos diferentes aspectos da prática e, principalmente, na vida. Na abordagem em sala de aula, seguimos o mesmo caminho!

O professor procura mostrar para o aluno que a perfeição não está necessariamente na estética da postura, uma vez que cada corpo possui sua estrutura, mas principalmente na qualidade da respiração, pois é ali que reside o fator terapêutico principal. O que acontece, porém, é que quase sempre os bloqueios e tensões no corpo do aluno geram limitações na respiração durante a execução da postura. Por isso, o ajuste do professor é parte essencial do processo.

Dessa forma, chegamos ao ponto central deste texto: a relação aluno/professor. Assim como sthira (firmeza)/Sukha (conforto), a relação intimidade/confiança é algo que se desenvolve naturalmente, uma vez que exista dedicação e sinceridade do professor e do aprendiz…

Essa relação de confiança e intimidade acontece de maneira muito orgânica. Com o passar do tempo, o professor conhece mais o corpo do aluno e o aluno confia mais no professor, se permitindo para o ajuste, para o toque, para a interação entre ambos, como se as mãos do professor não só revelassem a técnica, mas principalmente o acolhimento e sentimento.

Isso abre, cura o aluno, gera espaço e cria alicerce e é neste ponto que também reside o yoga. Como resultado, aflora uma relação de amor e admiração. Isso se chama Parampara, pois sucessão implica em transmitir experiência. E o próprio Patanjali afirma no primeiro capítulo do Yoga Sutra que conhecimento realizado através da experiência é o mais profundo!

 

Pratyakshanumanagamah pramanani

Discernimento (obtenção de conhecimento): a percepção direta, a logica e a autoridade no assunto. Y.S. 1.7

 

Me lembro de uma experiência alguns anos atrás com meu professor Matthew Vollmer. Kapotasana é uma postura da série intermediária geralmente muito forte, ainda mais para mim, por ter as costas mais rígidas. Sendo assim, durante um ajuste, minha mente gritava e toda minha atenção estava na dor. A tensão e o desespero tomavam conta do meu ser… Perdi a respiração de controle e logo iniciei alguns baixos gemidos. Com um sorriso estampado e uma voz baixa e acalentadora, ele disse: “Júnior, apenas ouça e respire…” E assim ele colocou (com amor) uma pitada ainda mais intensa nas mãos, de maneira lenta e precisa… Neste momento, toda minha admiração e confiança em meu professor foram retomadas, e pude perceber que a respiração aliviava toda a agonia, minha mente se voltava ao momento presente e eu percebia claramente a sensação de espaço nas costas e o peito se abrindo para o mundo, de uma forma jamais sentida antes.

Existe algo óbvio: bons professores são bons praticantes. E bons alunos, são praticantes obedientes!

Não digo isto apenas no sentido de aceitar cegamente o professor, mas obedientes na atitude de confiar no mestre, uma vez que o próprio vive o ensinamento da tradição. Aceitar quando ele diz que seu corpo ainda não está pronto, que você precisa parar ali! Aceitar que sua dose hoje é aquela!

E também quando acontece o contrário! Quando ele te convida para novas experiências através de novos asanas que ele mesmo praticou por anos, trilhando aquele caminho. Garimpando sensações de medo e alegria, dores e raiva, sorrisos e aberturas, se abrindo para o desconhecido.

É muito normal ver praticantes insaciáveis, em busca de cada vez mais posturas e avanços na série, se privando da principal efeito transformador desta prática! O autoconhecimento, a experiência de aceitar o hoje e se contentar com o presente, de construir tijolo por tijolo, de colocar telha por telha, sem pressa, com apenas paciência e amor.

 

Muito obrigado ao legado de mestres e professores que vem bondosamente contribuindo para a vida de tantas pessoas.

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5 thoughts on “Mãos que curam

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