Chorar sob o tapete – por Tati Chaves

O seguinte texto foi gentilmente cedido por Tati Chaves para publicação no Movimento Ashtanga.

“Agir de acordo com nosso divino propósito na vida é nosso dharma” (Do documentário My Dharma)

Hoje chorei sobre meu tapetinho. Já havia visto alunos meus terminarem uma prática e se emocionarem ao dizer o quanto estavam gratos por estarem ali, já tive aluno que sorria sem perceber enquanto estava em relaxamento profundo, já vi aluno se chatear por não conseguir realizar uma postura e já vi outros ficarem extremamente felizes ao conseguirem. Eu mesma experimentei muitas destas e outras sensações no meu tapete e sempre fiz uma autoanálise muito atenta para saber se minhas reações àquilo que me agradava ou me desagradava estavam refletindo também minhas reações fora do meu mat. Mas esta foi a primeira vez que realmente chorei.

Não sei se foi o fato de estar praticando sozinha, em casa, que me permitiu extravasar minhas emoções desta maneira. Quem me conhece um pouquinho sabe bem que não economizo nas lágrimas, mas assim, durante a prática nunca havia “precisado”. Até porque, sempre entendi esse momento como sendo desafiador, mas muito prazeroso o que, a princípio, não justificaria a vontade incontrolável de chorar.

Acontece que uma coisa muito importante acontece quando nos entregamos a algo que amamos fazer: este algo mexe com nossas estruturas emocionais de forma profunda. E aqui a palavra “entrega” não é gratuita; é ela, a entrega, que faz toda a diferença naquilo que, aos poucos, nos chega como resultado. E, em se tratando do Ashtanga, mais do que uma mudança no corpo que se pode observar pelo fortalecimento muscular, flexibilidade etc., as mudanças em planos sutis acontecem, permitindo mais concentração, foco, atenção e presença em atividades cotidianas que muitas vezes nem sequer nos dávamos conta. Mas a prática vai além e ajuda a dissolver velhos padrões emocionais e de pensamento, o que acaba nos levando a um estado mental mais pacífico. O caminho é longo e requer dedicação.


As posturas (ásanas) são veículos, são instrumentos através dos quais o corpo se purifica das toxinas acumuladas, provenientes de alimentos ou de qualquer emoção que não tenha sido bem digerida, promovendo um estado de bem-estar. Nas aulas e em muitos workshops dos quais participei, muito se fala em como cada postura nos beneficia de forma particular, seja melhorando a digestão, seja melhorando a circulação sanguínea, entre outros tantos benefícios, mas hoje entendi os efeitos de posturas como Urdhva Danurasana (a postura da ponte) e dos backdrops quando se fala que eles “abrem o peito”.

O que aconteceu comigo, acredito, foi um desbloqueio emocional intenso. Não chorei de tristeza nem sequer de alegria. Chorei porque sim, porque algo muito profundo em mim havia sido libertado. Parei, me sentei por uns instantes e a única coisa que chegou à minha mente foi um mantra que diz “lokah samastah sukhino bhavantu”, que pode ser traduzido, aproximadamente como “que todos os serem sejam livres, prósperos e felizes”. Foi o que senti; é o que desejo. Namaste!

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