Dinacharya

O texto abaixo foi gentilmente cedido por Ana Cláudia Lopes para publicação no Movimento Ashtanga.

Publicado originalmente no blog do Samatva Yoga.

Estabelecer uma prática diária não é tarefa fácil. Praticar todos os dias, independentemente do que aconteça, não se deixando influenciar pelos inúmeros eventos que nos parecem levar noutro caminho, requer perseverança, disciplina e amor. Mas talvez um dos segredos para fazer isso sem sacrifício ou esforço seja criar uma rotina que torne praticar algo tão natural quanto escovar os dentes. Só que, para a maioria de nós, rotina é uma palavra aborrecida. Fazer sempre a mesma coisa todo o dia? Seguir sempre os mesmos passos? Nossa mente não gosta muito disso, afinal é muito mais divertido inovar, inventar, diversificar. Mas olhemos a Natureza. O dia segue a noite, é simples assim. A semente brota, a planta cresce, nasce uma flor da qual sai um fruto e nele existe uma semente que dará origem a uma nova planta. Independentemente de nossos anseios e dramas pessoais, a Vida flui em ciclos que se repetem eternamente, num ritmo sobre o qual não temos nenhum controle, mas que nos influencia. Quando entendemos como esses ciclos agem dentro de nós, podemos entrar nessa dança de uma forma mais harmoniosa. E com o tempo, vamos experienciando e observando por nós mesmos os benefícios de fluir nesse ritmo mais natural, do qual uma prática diária faz facilmente parte.

Entretanto, isso não acontece de um dia para o outro. Até porque normalmente, temos muitos hábitos que repetimos automaticamente, por anos e anos, mesmo que saibamos que não nos fazem bem. Nosso corpo e mente tendem a seguir o caminho que sempre trilhamos. Mais do que isso, a dificuldade de deixar certos hábitos se prende com a identificação de nosso ego com o que estes representam. Somos tão apegados, que até vícios de que aparentemente não gostamos nos custam a abandonar, como se ao fazê-lo deixássemos para trás uma parte de nós. E de fato, é isso que acontece, mas precisamos lembrar que o que estamos deixando para trás são fragmentos de um eu ilusório, já que nossa essência seguirá imutável. E que ao limpar o velho, abrimos o espaço para o novo. Como humanos que somos, o vazio em todo seu potencial nos assusta, então precisamos ver onde nos vamos agarrar antes de soltar o antigo. Então, muitas vezes antes de pensarmos em cortar hábitos antigos, podemos pensar em criar novos, que nos levem a gerar mais espaço e luz, que nos deem o discernimento para depois abandonar o que não nos serve mais.

Entrar numa rotina diária que seja uma sucessão de passos nessa direção pode nos ajudar a criar uma estrutura que não só nos fará sentir melhor como apoiará a prática de Ashtanga. No Ayurveda isso se chama Dinacharya. Esta segue uma lógica, é dividida por fases segundo o Dosha que predomina em cada uma. Por exemplo, das 6h ás 10h da manhã é a hora Kapha, que traz consigo as qualidades deste Dosha, que é pesado, lento, frio, suave e pegajoso. Quando aumentamos esses atributos, dormindo, comendo alimentos frios e doces, como iogurte e pão, o que acontece é que os reforçamos, levando ao seu agravo e gerando desequilíbrios como sensação de peso, produção de muco ou náuseas. A ideia de seguir o Dinacharya é exatamente equilibrar a tendência natural de cada fase do dia, para que nenhum Dosha se agrave.

O Ayurveda diz que devemos acordar com o nascer do sol, equilibrando a tendência Kapha dessa hora. A primeira coisa a fazer quando despertamos é agradecer. Parece simples, mas quantos dias começamos pensando no que temos que fazer, nos problemas do dia anterior ou resistindo a acordar? Estamos vivos e não há nada melhor que isso. Um dia novo começa e com ele se acercam milhões de possibilidades de encontros, experiências, vivências e aprendizados que não podemos imaginar, por muito previsível que nos pareça o quotidiano.

IMG_4104

Quando nos levantamos, começamos a apoiar nosso corpo nas tarefas de eliminação que ele levou durante a noite, enquanto nossa mente e sentidos descansavam. A primeira coisa que devemos fazer é tomar um copo de água morna com limão. Isso ajuda a hidratar nosso corpo, a eliminar toxinas e a acordar o Agni, o fogo digestivo, adormecido. Para pessoas de constituição Vata, pode ser adicionado um pouco de sal para facilitar a hidratação, para as de Kapha uma colher de chá de mel, por sua propriedade expectorante. Já para pessoas Pitta, o sabor ácido deve ser usado com cautela, pelo que não se deve passar de 10 gotas de limão ou em caso de problemas como hiperacidez, usar só água morna.

Depois devemos fazer nossas eliminações. Isso é essencial para começarmos o dia renovados, partindo do zero. Se iniciarmos nosso dia com o corpo trabalhando ainda para processar os alimentos do dia anterior, teremos naturalmente menos energia para o dia que segue. Isso facilita muito nossa prática também. Tendo os órgãos internos vazios, as posturas podem surtir o efeito desejado, já que muitas são verdadeiras massagens dos órgãos internos. Por isso também não é aconselhado comer nem tomar grandes quantidades de liquido antes de praticar. Para as pessoas que têm dificuldade de evacuar espontaneamente todas as manhãs, é aconselhado tomar um copo de leite morno com ghee antes de dormir.

Para deixarmos para trás tudo o que pertence ao dia anterior, continuamos nossa rotina ao escovar os dentes, de preferência com um creme dental que tenha um sabor amargo ou adstringente. O Ayurveda recomenda ainda raspar a língua com um raspador próprio para isso e aplicação de cinco gotas de óleo de gergelim em cada narina. Antes do banho, pode ser feita uma Abhyanga, uma massagem com óleo de gergelim para Vata e Kapha e óleo de coco para Pitta. Tomar banho logo de manhã purifica nosso corpo e mente, nos preparando também para a prática. Não por acaso Saucha, limpeza, é um dos Niyamas.

A prática de Ashtanga se inclui perfeitamente na lógica do Dinacharya, já que esta é a hora ideal tanto para fazer exercício como para meditar. Movimentar e esquentar o corpo equilibra a tendência Kapha. Ao mesmo tempo, nossa mente reflete o momento naturalmente sátvico do dia, que acontece no nascer e no pôr do sol.

Depois de praticar, alguns cuidados devem ser tomados também. Mudanças bruscas de temperatura devem ser evitadas, pelo que devemos trocar de roupa se estamos suados ou pelo menos colocar uma roupa quente. Devemos esperar pelo menos meia hora para comer e tomar banho. Isso porque aumentamos a circulação para nossos órgãos e glândulas. Quando comemos ou tomamos banho, nosso corpo termina abruptamente de absorver os benefícios da prática para levar o sangue para a pele ou para iniciar a digestão. Ao lavarmos nosso corpo também impedimos a reabsorção dos minerais eliminados pelo suor. A nível energético, o Prana que ainda estava sendo absorvido se esvai para outros lugares. Da mesma forma, nossa atitude de entrega e devoção deve se estender, de preferência para todo o nosso dia, não se limitando ao tempo no tapetinho.

Quanto aos horários de comida é dito que devemos comer um pouco de manhã, fazer nossa maior refeição á hora de almoço e jantar de forma leve á noite. Isso porque nosso Agni segue o ritmo do Sol, que é mais forte ao meio dia. Para respeitar nosso fogo digestivo devemos também comer somente quando temos fome, sem distrações, num lugar tranquilo e evitando bebidas e comidas geladas.

Das 14h ás 18h é o horário Vata, ótimo para trabalhos mentais e criativos. Das 18h ás 22h volta o horário Kapha, e naturalmente vamos acalmando nosso ritmo a essa hora. No pôr-do-sol, Sattva volta a predominar, sendo outro ótimo momento para uma prática espiritual como meditação.

À noite, um jantar leve facilita o sono e o descanso, não devendo ser feito depois das 20h da noite. Isso ajuda a acordar mais leve no dia seguinte e é sentido claramente na prática. Se comemos demais á noite, indo dormir depois, será muito difícil para nosso corpo digerir tudo, formando Ama. Esta é o conjunto de biotoxinas acumuladas por uma não digestão dos alimentos consumidos, que nos faz acordar com sensação de peso e dores no corpo, sobretudo nas articulações.

IMG_2255

Também nossos sentidos devem ser nutridos com impressões leves, evitando filmes ou estímulos audiovisuais fortes à noite. De fato, a partir das 20h o ideal seria preparar nosso corpo e mente para descansar, não indo dormir depois das 22h. Pela correria de nossas vidas isso é difícil, mas também o é acordar antes do nascer do sol se dormimos muito tarde. A partir das 22h é de novo o horário Pitta. Se mantemos os estímulos até essa hora, naturalmente vamos aumentar nossa atividade depois. Por isso muita gente diz que não consegue dormir a noite, que é quando se sente mais ativo. Das 2h ás 6h é o horário Vata e não por acaso coincide com o horário em que a maior parte das pessoas que sofre de insônias relata que acorda e já não consegue voltar a dormir. Descanso e sono são necessidades tão importantes quanto a alimentação, por isso ter uma rotina que favorece sua boa qualidade é fundamental.

Estas não são regras fixas, mas sugestões que podemos seguir, pôr á prova e experienciar seus verdadeiros benefícios. Isso é Yoga também: estar presente, atento àquilo que acontece com nosso corpo e mente. Aos poucos, se sintonizar com um ritmo natural em vez de seguir apenas desejos e aversões de forma automática, romper padrões de comportamento instalados por anos. E através da observação, descobrir que entrar nessa dança é uma busca constante, um caminho que não tem perfeição ou fim, um exercício de aceitação da inquestionável impermanência da Vida.

Texto de Olga Rodrigues
Fotos da Lagoa da Conceição, arquivo pessoal

Share on FacebookShare on Google+Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *