O que aprendi quando quebrei ao meio – Por Marina Faissal

Quando eu estava começando a praticar Ashtanga, meu primeiro professor, num ajuste de suptakurmasana em que me machuquei, me falou: “seu problema é que você é tão flexível que você só reclama depois que já te machucou”. Eu nunca esqueci aquela lição sobre meus limites que extrapolavam as barreiras do corpo físico, emocional e mental, e o quanto fortalecendo um desses corpos, eu fortalecia a todos. Aquela foi a primeira vez que a prática me salvou: além de uma se tornar uma ferramenta que me abriu as portas do caminho do autoconhecimento, pouco tempo depois eu descobri que queria ser professora, entender, enxergar e ajudar as pessoas com aquele olhar que meu professor dedicava a mim.

Há pouco mais de um ano eu sofri um acidente: uma queda quebrou a minha coluna ao meio. Veja bem: eu quebrei a vértebra t12, a do meio. Eu quebrei ao meio. Foi muita sorte não ter acontecido nada mais sério, considerando que estou aqui hoje sentada em posição de lótus, datilografando num computador apoiado no chão. Por ser praticante de yoga há tantos anos, minha musculatura das costas (a que eu vivia reclamando de não ser forte ou flexível suficiente para que eu fizesse posturas quase circenses) era tão forte que, na hora da queda, ela se contraiu para absorver o impacto e o resultado foi, ao invés de uma tragédia, “apenas uma” vértebra quebrada. Foi quando o Ashtanga salvou minha vida pela segunda vez.

Segundo meu professor, Pattabhi Jois dizia que lesões, dores e desconfortos eram sinais de aberturas no corpo, reorganizações energéticas que ajudam no realinhamento e melhor circulação de prana. Bom, parece que eu estava precisando de um ajuste na marra, não é mesmo?

Mas no momento da queda, e na hora que caí no chão e senti a dor da pancada, a primeira coisa que me passou na cabeça (juro!) foi: “como é que eu vou praticar amanhã?”.

Mal sabia eu que esse pensamento ia me assombrar pelos meses seguintes. O medo de nunca mais poder praticar (e correr, dançar, andar de bicicleta) crescendo ao longo do tempo que passava. Um medo absoluto do desconhecido que me foi imposto: eu não lembrava a última vez na vida que tinha parado de praticar exercícios por mais de uma semana. Nunca, desde que eu havia descoberto meu corpo eu imaginei que algum dia eu não pudesse usá-lo como válvula de escape, forma de regulação, de prazer, de relaxamento. Eu tinha meu corpo como certo. E então eu descobri que eu estava com medo desse corpo que enfraquecia, doía. Não saber o que ia acontecer com ele quando a vértebra calcificasse, não ter a menor idéia do tamanho do estrago e das limitações que aquilo ia se impôr na minha rotina e na minha prática me causou tanta angústia que eu era incapaz de perceber todas as oportunidades que de repente se abriam pra mim e como aprender com elas.

Por raiva, medo e dor, eu neguei meu corpo, e minha mente me dominou. Eu acordava no meio da noite de sobressalto, com a sensação da queda. Muitas foram as crises de ansiedade: descargas de adrenalina, dor e tristeza, o medo e o vazio. E de repente a escuridão. Lembro de falar para a minha terapeuta que a minha sensação era a de estar presa num quarto totalmente escuro, cheio de móveis, entulhos e quinas sem ter idéia de onde acendia a luz. E era exatamente isso o que estava acontecendo: a vida tirou a minha muleta (a prática de exercícios) e me deu consciência dos meus obstáculos e desafios. E foi por ter a oportunidade de ver o tamanho da minha sombra que também pude ter idéia da intensidade da minha luz. Foi por causa de toda a dor que entendi a importância da minha prática e do meu trabalho. Foi pelo medo de não poder mais ser quem eu era e fazer o que sempre fiz que eu descobri a coragem de virar e experimentar coisas novas. Foi por perceber que alguns processos precisam ser vividos a sós (e isso não tem nada a ver com solidão) e nas perdas que tive, que me abri para o que a vida estava me dando: a oportunidade de reconstruir não só a estrutura física da coluna quebrada, mas a estrutura dos afetos que me sustentam. Foi no auge do desespero que eu aprendi a abraçar e assumir minha fragilidade e pedir ajuda. E ela veio. Em forma de amor recebido e sentido- porque amar também salva. Veio por todos os que estiveram ao meu lado: amigos, família, alunos, médicos, terapeutas, professores.

A primeira prática depois que eu fui autorizada a voltar a minha rotina foi dolorosa e linda. E o que eu aprendi a partir daquele dia foi o amor e o carinho pelos processos: era um corpo diferente, frágil, mas experiente. Foi tempo de observar e estudar bandhas e drishtis, ujjay. Tempo de desapegar de posturas difíceis, do desejo por posturas/séries novas, e trabalhar no presente.
Sinto que recomeçar a praticar é como reler um livro ou rever um filme que se ama muito: por mais que você já conheça a história, sempre se depara com uma frase, uma cena, um diálogo que não tinha tido tanta importância e então te acerta em cheio, coisas que em outros tempos você não estava preparado para absorver.
Assim, eu tenho (re)aprendido a importância de subir no meu tapete diariamente e agradecer pela oportunidade de passar uma hora e meia respirando na companhia do meu corpo, observando minha mente. Tenho (re)aprendido a não me importar com a quantidade ou grau de dificuldade das posturas que eu faço/ estou fazendo atualmente, porque nada é definitivo e importa mesmo é que eu esteja lá dando o meu melhor. Valorizar cada prática de presença e consciência muito mais do que os backbends que eu (eu mesmo?) gostaria de estar fazendo. A ironia é que, com essa falta de expectativa, muitas posturas que antes eu fazia com dificuldade, sempre passando por elas correndo para chegar logo na próxima, começaram a se abrir e a se tornar desafios prazerosos. Duas delas, que eu só conseguia fazer com ajustes de um professor, agora faço sozinha. Dar mais importância ao que acontece dentro, às emoções que se apresentam, respeitar a dor sem deixar paralisar. AGRADECER. Construir tudo de novo, tijolo por tijolo. Cuidar para que seja uma estrutura mais forte, mais sólida. No entanto, saber que muitas vezes o furacão é maior do que qualquer coisa que a gente constrói, e não há nada que se possa fazer a não ser pegar todos os pedaços e recomeçar: exercitar a consciência da impermanência e a entrega.

O Ashtanga me salvou mais uma vez, pra me mostrar que a gente se salva sozinho, basta ter coragem de (se) refazer, todo dia, com suor, dedicação, atenção, presença, e amor pelo caminhar.

Eu Agradeço. Que todos os seres em todas as partes sejam felizes e encontrem a paz ❤

 

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4 thoughts on “O que aprendi quando quebrei ao meio – Por Marina Faissal

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